Marcas de luxo contribuem para novo tecido sustentável: couro de cogumelos

26/Mar/2021

 

Em 2021, marcas de luxo e de desporto lançarão produtos com material ecológico e biodegradável como substituto do couro animal

Usada desde os tempos ancestrais para proteger o corpo do frio, transformada em vestimenta, a pele animal continua a ser um dos materiais naturais mais duráveis ??e versáteis para produzir artigos de moda. No entanto, elevam-se as vozes que a colocam em questão, considerando o seu impacto ambiental e a proveniência animal.

Alternativas ao couro convencional, produzidas a partir de polímeros sintéticos, têm tido bastante aceitação no mercado da moda.

Estes, enaltecidos pela redução do impacto em termos de sustentabilidade ambiental, não representam ainda a perfeição. Apesar do caminho certo, os materiais apresentam alguns problemas que podem trazer consequências ambientais.

MyloTM da Bold Threads

No entanto uma solução mais sustentável foi encontrada por marcas como Adidas, Lululemon, Kering e Stella McCartney. Pioneiras, financiaram a investigação e desenvolvimento de uma nova alternativa através da empresa americana de biotecnologia Bold Threads, o couro de cogumelo.

Este material, com o aspeto visual e toque similar ao da pele animal denomina-se de MyloTM.
Foi lançado em 2018, é feito com o micélio, que é uma parte da estrutura dos fungos (parte vegetativa) que apresenta qualidades semelhantes ao couro de origem animal (vaca), sem a necessidade de uso de produtos químicos tóxicos no seu processo.

O menor impacto ambiental é também resultado de um consumo muito inferior de água (1m2 de cultivo consome apenas 45 lt de água, contra 500 lt consumidos para obtenção de 1m2 de couro tradicional de origem animal). Neste sentido, pode ser feita agricultura vertical para se economizar espaço, o que resulta na redução das emissões de dióxido de carbono. Além disso, elimina a crueldade contra os animais que é a criação de gado para a extração do couro. 

 

Enquanto que uma vaca demora no mínimo três anos a ser criada, não raras vezes em condições deploráveis para a qualidade de vida do animal, os cogumelos crescem em menos de três semanas e podem originar pedaços de couro de qualquer tamanho desejado.

Este couro é respirável e robusto. A sua textura é suave de um lado e resistente do outro, destacando-se ainda por ser impermeável. É também um material fácil de costurar, devido à sua elasticidade. Pode ainda ser tingido com qualquer cor e serve para fabricar malas, cintos, carteiras e outros objetos de marroquinaria.

Em 2018, Stella McCartney, produziu a primeira bolsa Falabella feita de MyloTM para exposição no Victoria & Albert Museum.

 

Com os desenvolvimentos mais atuais começam a ser feitas as primeiras aplicações em vestuário, sendo já possível fazer peças de MyloTM suficientemente grandes para cortar em calças ou outras peças de roupa.

Stella McCartney voltou a posicionar-se na linha da frente da sustentabiidade, apresentando na sua última coleção as primeiras peças do mundo feitas de MyloTM, nomeadamente um bustier preto e calças com perna em balão confecionadas com este material.

 

 

Os avanços da MycoWorks

A MycoWorks foi uma das primeiras empresas norte-americanas a patentear produtos de pele derivados de fungos.

Em 2016, a empresa apresentou publicamente uma folha de micélio do tamanho de um meio couro de vaca, que tinha feito crescer numa questão de semanas.

A MycoWorks chamou a atenção de marcas de moda e calçados por todo o mundo, dado o potencial impacto na indústria da moda deste novo biomaterial.
A empresa foi inundada de convites para financiar a criação dos primeiros produtos do mundo com os seus materiais de micélio. Surge assim uma parceria de desenvolvimento com uma das principais marcas de luxo do mundo, a Hermès. Ao longo de dois anos, as biotecnologias desenvolveram-se e transformaram-se num processo patenteado chamado Fine Mycelium, resultando na inovação biomaterial, denominada Reishi™: a primeira opção de Mycelium Fino™ do mundo para couro (alternativa natural e premium). Caracterizado pela sua força, durabilidade e personalização para obtenção dos mais elevados padrões de desempenho, este material foi lançado depois de anos de aperfeiçoamento em colaboração com os parceiros de marca e artesãos de couro mestre, na Semana de Moda de Nova York em fevereiro de 2020.

A casa francesa Hermès tem trabalhado nos últimos três anos para redesenhar sua famosa Victoria Bag, juntamente com a MycoWorks, num material Fine Mycelium, chamado Sylvania, um híbrido do natural e do biotecnológico. Estima-se que a bolsa alternativa sustentável estará disponível até o final do ano 2021.

 

Não obstante este passo em frente na direção da sustentabilidade desse avanço, a Hermès avisou não vai parar de fabricar as bolsas em couro animal. A ideia é oferecer alternativa para os consumidores que desejam versões mais sustentáveis.

Se cogumelos no prato não são da sua preferência, não os diabolize... quem sabe possam vir a substituir o couro no seu calçado, nas suas bolsas e até no seu vestuário. E o planeta agradece!