Papel da Indústria da Moda Internacional no combate ao COVID-19

01/Apr/2020

A situação que atravessamos atualmente, desta guerra mundial, contra um inimigo comum e invisível, não tem precedentes na história. Assim como o gigantesco movimento de solidariedade que se tem formado, entre países, entre instituições e organizações, enfim, entre pessoas, que é ao que, no fim de tudo, nos resumimos, lutando pela nossa existência.

Assistimos a ações de generosidade de todos os setores da sociedade, porque todos estamos a sofrer, enquanto seres humanos, enquanto profissionais, enquanto empresários, investidores, etc. Mas quanto mais pudermos ajudar, menor será o impacto individual e conjunto, desta pandemia.

E ninguém poderia um dia imaginar, que grandes grupos internacionais de moda, convertessem as suas fábricas, para produzir roupas hospitalares médicas (Inditex – Zara em Espanha e grupo Kering – Gucci em Itália, ainda à espera de autorização), para fabricar gel desinfetante para as mãos (grupo LVMH – Louis Vuitton em França), ou para fabrico de máscaras faciais (grupo Kering – Saint Laurent e Balenciaga em França e Gucci em itália, aguardando ainda autorização), doando tudo às autoridades sanitárias dos respetivos países.

A H&M por seu lado, comprometeu-se com a UE, redirecionar os seus fornecedores para o fabrico de máscaras, luvas e aventais médicos, e também comprar diretamente equipamentos de proteção dos fabricantes existentes, para doação.

O contributo destes grandes industriais também tem sido a nível financeiro, com o importante suporte dos fornecedores que tiveram as suas encomendas canceladas, e cujos produtos já se encontravam fabricados, sendo estes pagos, como no caso da H&M, PVH Group (dono da Calvin Klein, entre outros), Inditex (ZARA), Marks & Spencer, Kiabi e outros; com doações à Cruz Vermelha (p.e., LVMH e Kering); com doações para apoiar a infraestrutura de saúde, como fez a Moncler, em relação a um novo hospital em Milão; doando uma percentagem do produto da venda on-line (p.e., AMI Paris); bem como através de donativos pessoais, e não corporativos (a família Versace doou 200.000 euros a um hospital de Milão, a família sénior da Prada fez donativos para unidades de terapia intensiva e reanimação em hospitais em Milão, etc.).

Os contactos priveligiados destes grandes grupos, de fornecedores, na China, têm sido utilizados para encomendas diretas de equipamento de proteção, tais como máscaras (grupo LVMH, pagas pelo seu presidente; grupo Kering e Inditex que as doam).

Nos EUA, nove empresas de vestuário e têxtil - American Giant, Fruit of the Loom, Hanesbrands, Parkdale Inc., Los Angeles Apparel, AST Sportswear, American Knits, Beverly Knits e Riegel Linen – juntaram-se, reunindo as suas capacidades de industriais, para produção de máscaras a entregar ao Departamento de Saúde dos EUA.

A francesa Decathlon, uma empresa de inovação chamada Isinnova e alguns médicos italianos, desenvolveram apartir de máscaras de mergulho, máscaras de ventilação de emergência para pacientes com COVID-19, conectando a máscara a um ventilador, graças à impressão 3D da "válvula Charlotte" patenteada pela Isinnova. Para que todos os hospitais em necessidade possam usá-las, as informações foram disponibilizadas gratuitamente.

Em Portugal, a Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confecção (Anivec), lidera a iniciativa, com a colaboração do centro tecnológico do setor (CITEVE) devido às exigências de esterilização, que junta várias empresas de referência do setor da indústria têxtil e de vestuário disponíveis para, ao serviço da saúde pública, produzirem máscaras cirúrgicas, proteção para sapatos e batas, entre outros equipamentos de proteção.
O presidente da ANIVEC frisou que "a fileira têxtil e vestuário nacional tem capacidades técnicas inigualáveis no mundo e não [poderia], num momento difícil como o atual, deixar de contribuir, dentro das possibilidades, para este combate que é de todos".

Todas estas iniciativas são exemplos da flexibilidade, agilidade e generosidade de algumas empresas de moda e do impacto positivo que a indústria da moda pode ter ao enfrentar desafios globais.

Será que, no pós-COVID-19, esta responsabilidade se refletirá em práticas mais sustentáveis no setor?